“Pssica”, produção original da Netflix, lançada em agosto de 2025, ergue-se além de mero entretenimento, como um elemento cultural de extrema urgência e densidade psicológica e antropológica. A série emprega a linguagem do thriller, (certamente, para tornar a realidade suportável), para dissecar, com crueza e sensibilidade, um dos traumas mais profundos da sociedade contemporânea: a exploração sexual infantil e o tráfico de seres humanos.
Mas, logo no seu início, percebemos que sua direção está conectada a um dos problemas mais abissais que atinge nossa infância e adolescência na atualidade: o uso irresponsável e desrespeitoso da internet.
É “curioso” como num Brasil distante dos grandes centros, a presença da internet, sobretudo através de celulares, cause tantos estragos. As crianças não são tributárias de algumas vantagens da vida dos grandes centros, mas, por outro lado, o são, quando o assunto é a velocidade que a veiculação de informações via internet circula e os males que causam.
Será que Janalice, protagonista da série, teria vivido tantas situações de extrema violência, caso seu gesto não tivesse sido gravado e compartilhado pelo adolescente? A quem interessa, num lugar tão remoto, com tanta escassez de recursos, que a internet já tenha alcançado a nossa juventude, com a mesma violência das grandes metrópoles? Teria, a psicanálise, alguma contribuição a dar se desejamos analisar a amplitude desse fenômeno?
Meu objetivo com esse trabalho está longe de pretender responder essas perguntas ou trabalhar temas tão complexos quanto os interesses das big techs estrangeiras, a deep web, os algoritmos, ou a soberania digital no Brasil. 2
A grande questão, a meu ver, é: como nós, psicanalistas, podemos potencializar nossa própria sensibilidade para lidar com uma realidade incontornável e que traz novas configurações para nossa clínica e para a nossa sociedade?
Se, nosso fundador é uma inspiração, então, lembremos o que as pesquisas de Elizabeth Danto nos apresentam em “As clínicas Públicas de Freud: Psicanálise e Justiça Social”. Sem sensibilidade social, esvaziamos a psicanálise.
Diferente de muitas produções do gênero, “Pssica” é uma obra original adaptada para o formato de série por Bráulio Mantovani. O romance homônimo do escritor paraense Edyr Augusto é o texto inicial. Mas, para a fundamentação da série houve, também, uma pesquisa meticulosa de casos reais e da vasta literatura de especialistas que estudam o crime organizado, a violência de gênero e o trauma infantil.
Ou seja: a ficção retrata com muita fidedignidade a realidade. E, de início, concluímos que, com a diminuição das distâncias que a internet viabiliza, pé possível que adolescentes de qualquer lugar, possam assistir a dureza em que Janalice está imersa. Isso, do mesmo modo que o oriente, com seus mangás e animes, habita com frequência, a vida dos adolescentes que atendemos em nossos consultórios.
Incentivada por uma autoridade religiosa, o que a mãe de Janalice faz é entregar a adolescente à uma tia, o que a leva a uma série de violências: do abuso sexual ao impiedoso universo dos tráficos de drogas e humano. Onde o Estado não chega, estejam certos, de que as igrejas neopentecostais estão alcançando. O que nós, psicanalistas não buscarmos responder, as mesmas, responderão com violência repressiva e culpabilização das vítimas.
A direção de Fernando e Quico Meirelles é crucial para a potência narrativa. Na série, há quatro núcleos que convivem trazendo temas urgentes para essa região esquecida do país. Os ratos d’água, gangue de criminosos que assombram as viagens pluviais, com um padrão de criminalidade muito próximo ao das grandes metrópoles. E, contando com a polícia do Estado. Neste ponto, lembramos Contardo Calligaris, quando fala da perversão social no livro “O Grupo e o Mal”.
O segundo, é composto pela família de Mariangel, uma ex-guerrilheira colombiana, empenhada em vingar o assassinato do marido e filho, praticado pela gangue dos ratos d´água.
O terceiro é o da família de Janalice. Está em Marajó e Belém, cidade para onde a moça é levada e onde, além de sofrer abuso sexual , conhece a dependência do crack, quando se aproxima de uma adolescente da cidade. A vida nas ruas seria melhor que o abuso sexual na casa da tia. Até aí, a trama está entre Marajó e Belém.
Mas, quando Janalice é capturada pelo tráfico sexual de meninas, é levada para Caiena, na Guiana Francesa, onde homens mais velhos esperam por “carne fresca e branquinha” que vem do Estado do Pará. Este é o quarto núcleo da trama. Também, bastante perverso.
Ao nos aproximarmos da psicanálise, se partimos do significante “pssica”, palavra local que significa “maldição” ou “azar”, podemos iniciar nos perguntando o porquê da escolha de uma palavra que se apresenta como uma repetição, da qual não se poderia escapar. Ela é repetida em muitos momentos do enredo, mas não por um dos personagens, e sim, por uma voz, ao fundo. O recurso auditivo parece ratificar a noção de repetição que ocorre fora do âmbito da consciência, exatamente como uma compulsão à repetição, como nos aponta, Freud. As personagens vivem suas experiências, como se delas não pudessem fugir.
Em segundo lugar, há o ”desamparo” em que Janalice se encontra. Se a tentativa do pai em protegê-la, fenece diante do fanatismo religioso da mãe, em quase toda a série, o ambiente, no sentido que nos aponta Winnicott, falha de maneira contundente. Mas, se a família falhou em sustentar esse ambiente “suficientemente bom”, não teria o Estado, em se tratando de crianças e adolescentes, que cumprir a função de acolhida?
Ao tratarmos do abuso sexual, lembramos Ferenczi, quando diferencia a “linguagem da ternura” da “linguagem da paixão” no seu texto “Confusão de línguas entre o adulto e a criança”. Nele, conforme o autor, “A criança de quem se abusou converte-se num ser que obedece mecanicamente, ou que se fixa numa atitude obstinada: mas não pode mais explicar as razões desta atitude.” (p. 118)
Entretanto, Janalice é uma jovem brava. Mesmo diante do desespero que demonstra quando telefona ao pai pedindo ajuda, na maior parte do tempo está lutando, fugindo, tentando escapar. Sente raiva, se revolta, não se conforma com as condições que lhe são impostas, apesar de viver situações profundamente traumáticas.
Neste sentido, lembramos da pulsão de vida, em Freud, quando o movimento da protagonista concorre para a preservação da própria vida.
Por outro lado, recorremos, mais uma vez, a Ferenczi, quando nos apresenta o conceito de trauma:
“a subitaneidade da comoção psíquica causa um grande desprazer que não pode ser superado. Mas o que significa, pois, superar? (1º) Uma defesa real contra a nocividade, ou seja, uma transformação do mundo circundante no sentido de um afastamento da causa do distúrbio (…). (2º) A produção da representação a respeito da mudança futura da realidade num sentido favorável; o fato de nos apegarmos a essas imagens de representações que enfatizam, portanto, o prazer, in spe, nos torna capazes de “suportar” esse desprazer, ou seja, de não sentí-lo (ou senti-lo menos) como tal” (p. 126)
A série de traumas vividos por Janalice, seriam suficientes para fazê-la sucumbir, se não fosse sua resiliência e, quem sabe, esta capacidade de uma representatividade a respeito do futuro, como nos sugere Ferenczi, que permitiu a reintegração de sua identidade e o final surpreendente que oferece ao próprio enredo.
Para a psicanálise, a relação entre linguagem e a experiência do trauma no contexto do abuso e da violência sexual infantil é fundamental para entender como essas experiências impactam a vida das vítimas. A capacidade de verbalizar e nomear o trauma desempenha um papel crucial na elaboração do que vivem, enquanto a confusão e o silenciamento resultam em consequências que podem persistir ao longo da vida. Entretanto, este é um sonho do qual nosso país “esquecido” ainda está privado.
Por ora, é necessário sabermos que, na série, a vulnerabilidade social dos personagens é um fator determinante que molda não apenas suas experiências de 5 vida, mas também suas reações emocionais e comportamentais. O impacto dessa vulnerabilidade se reflete em suas interações, decisões e na luta constante por pertencimento e aceitação. A série retrata de forma poderosa como essas dinâmicas influenciam a trajetória dos personagens, oferecendo uma visão profunda e sensível das complexidades da experiência humana em contextos desafiadores.
Através da lente de diretores talentosos e de um argumento original e corajoso, a série ilumina os recantos mais sombrios da nossa sociedade, servindo como um apelo contundente à reflexão e à ação perante a violação sistemática dos direitos mais fundamentais da criança.
Não há como tratar da série sem fornecer alguns “spoilers”, mas, independente disso, recomendo fortemente que seja assistida, pois o impacto sobre cada qual é, como tudo em psicanálise, absolutamente singular.