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26 de janeiro de 2026

“PSSICA”: quando a “maldição” atinge as crianças de nosso Brasil “invisibilizado”

“Pssica”, produção original da Netflix, lançada em agosto de 2025, ergue-se além de mero entretenimento, como um elemento cultural de extrema urgência e densidade psicológica e antropológica. A série emprega a linguagem do thriller, (certamente, para tornar a realidade suportável), para dissecar, com crueza e sensibilidade, um dos traumas mais profundos da sociedade contemporânea: a exploração sexual infantil e o tráfico de seres humanos.

Mas, logo no seu início, percebemos que sua direção está conectada a um dos problemas mais abissais que atinge nossa infância e adolescência na atualidade: o uso irresponsável e desrespeitoso da internet.

É “curioso” como num Brasil distante dos grandes centros, a presença da internet, sobretudo através de celulares, cause tantos estragos. As crianças não são tributárias de algumas vantagens da vida dos grandes centros, mas, por outro lado, o são, quando o assunto é a velocidade que a veiculação de informações via internet circula e os males que causam.

Será que Janalice, protagonista da série, teria vivido tantas situações de extrema violência, caso seu gesto não tivesse sido gravado e compartilhado pelo adolescente? A quem interessa, num lugar tão remoto, com tanta escassez de recursos, que a internet já tenha alcançado a nossa juventude, com a mesma violência das grandes metrópoles? Teria, a psicanálise, alguma contribuição a dar se desejamos analisar a amplitude desse fenômeno?

Meu objetivo com esse trabalho está longe de pretender responder essas perguntas ou trabalhar temas tão complexos quanto os interesses das big techs estrangeiras, a deep web, os algoritmos, ou a soberania digital no Brasil. 2

A grande questão, a meu ver, é: como nós, psicanalistas, podemos potencializar nossa própria sensibilidade para lidar com uma realidade incontornável e que traz novas configurações para nossa clínica e para a nossa sociedade?

Se, nosso fundador é uma inspiração, então, lembremos o que as pesquisas de Elizabeth Danto nos apresentam em “As clínicas Públicas de Freud: Psicanálise e Justiça Social”. Sem sensibilidade social, esvaziamos a psicanálise.

Diferente de muitas produções do gênero, “Pssica” é uma obra original adaptada para o formato de série por Bráulio Mantovani. O romance homônimo do escritor paraense Edyr Augusto é o texto inicial. Mas, para a fundamentação da série houve, também, uma pesquisa meticulosa de casos reais e da vasta literatura de especialistas que estudam o crime organizado, a violência de gênero e o trauma infantil.

Ou seja: a ficção retrata com muita fidedignidade a realidade. E, de início, concluímos que, com a diminuição das distâncias que a internet viabiliza, pé possível que adolescentes de qualquer lugar, possam assistir a dureza em que Janalice está imersa. Isso, do mesmo modo que o oriente, com seus mangás e animes, habita com frequência, a vida dos adolescentes que atendemos em nossos consultórios.

Incentivada por uma autoridade religiosa, o que a mãe de Janalice faz é entregar a adolescente à uma tia, o que a leva a uma série de violências: do abuso sexual ao impiedoso universo dos tráficos de drogas e humano. Onde o Estado não chega, estejam certos, de que as igrejas neopentecostais estão alcançando. O que nós, psicanalistas não buscarmos responder, as mesmas, responderão com violência repressiva e culpabilização das vítimas.

A direção de Fernando e Quico Meirelles é crucial para a potência narrativa. Na série, há quatro núcleos que convivem trazendo temas urgentes para essa região esquecida do país. Os ratos d’água, gangue de criminosos que assombram as viagens pluviais, com um padrão de criminalidade muito próximo ao das grandes metrópoles. E, contando com a polícia do Estado. Neste ponto, lembramos Contardo Calligaris, quando fala da perversão social no livro “O Grupo e o Mal”.

O segundo, é composto pela família de Mariangel, uma ex-guerrilheira colombiana, empenhada em vingar o assassinato do marido e filho, praticado pela gangue dos ratos d´água.

O terceiro é o da família de Janalice. Está em Marajó e Belém, cidade para onde a moça é levada e onde, além de sofrer abuso sexual , conhece a dependência do crack, quando se aproxima de uma adolescente da cidade. A vida nas ruas seria melhor que o abuso sexual na casa da tia. Até aí, a trama está entre Marajó e Belém.

Mas, quando Janalice é capturada pelo tráfico sexual de meninas, é levada para Caiena, na Guiana Francesa, onde homens mais velhos esperam por “carne fresca e branquinha” que vem do Estado do Pará. Este é o quarto núcleo da trama. Também, bastante perverso.

Ao nos aproximarmos da psicanálise, se partimos do significante “pssica”, palavra local que significa “maldição” ou “azar”, podemos iniciar nos perguntando o porquê da escolha de uma palavra que se apresenta como uma repetição, da qual não se poderia escapar. Ela é repetida em muitos momentos do enredo, mas não por um dos personagens, e sim, por uma voz, ao fundo. O recurso auditivo parece ratificar a noção de repetição que ocorre fora do âmbito da consciência, exatamente como uma compulsão à repetição, como nos aponta, Freud. As personagens vivem suas experiências, como se delas não pudessem fugir.

Em segundo lugar, há o ”desamparo” em que Janalice se encontra. Se a tentativa do pai em protegê-la, fenece diante do fanatismo religioso da mãe, em quase toda a série, o ambiente, no sentido que nos aponta Winnicott, falha de maneira contundente. Mas, se a família falhou em sustentar esse ambiente “suficientemente bom”, não teria o Estado, em se tratando de crianças e adolescentes, que cumprir a função de acolhida?

Ao tratarmos do abuso sexual, lembramos Ferenczi, quando diferencia a “linguagem da ternura” da “linguagem da paixão” no seu texto “Confusão de línguas entre o adulto e a criança”. Nele, conforme o autor, “A criança de quem se abusou converte-se num ser que obedece mecanicamente, ou que se fixa numa atitude obstinada: mas não pode mais explicar as razões desta atitude.” (p. 118)

Entretanto, Janalice é uma jovem brava. Mesmo diante do desespero que demonstra quando telefona ao pai pedindo ajuda, na maior parte do tempo está lutando, fugindo, tentando escapar. Sente raiva, se revolta, não se conforma com as condições que lhe são impostas, apesar de viver situações profundamente traumáticas.

Neste sentido, lembramos da pulsão de vida, em Freud, quando o movimento da protagonista concorre para a preservação da própria vida.

Por outro lado, recorremos, mais uma vez, a Ferenczi, quando nos apresenta o conceito de trauma:

“a subitaneidade da comoção psíquica causa um grande desprazer que não pode ser superado. Mas o que significa, pois, superar? (1º) Uma defesa real contra a nocividade, ou seja, uma transformação do mundo circundante no sentido de um afastamento da causa do distúrbio (…). (2º) A produção da representação a respeito da mudança futura da realidade num sentido favorável; o fato de nos apegarmos a essas imagens de representações que enfatizam, portanto, o prazer, in spe, nos torna capazes de “suportar” esse desprazer, ou seja, de não sentí-lo (ou senti-lo menos) como tal” (p. 126)

A série de traumas vividos por Janalice, seriam suficientes para fazê-la sucumbir, se não fosse sua resiliência e, quem sabe, esta capacidade de uma representatividade a respeito do futuro, como nos sugere Ferenczi, que permitiu a reintegração de sua identidade e o final surpreendente que oferece ao próprio enredo.

Para a psicanálise, a relação entre linguagem e a experiência do trauma no contexto do abuso e da violência sexual infantil é fundamental para entender como essas experiências impactam a vida das vítimas. A capacidade de verbalizar e nomear o trauma desempenha um papel crucial na elaboração do que vivem, enquanto a confusão e o silenciamento resultam em consequências que podem persistir ao longo da vida. Entretanto, este é um sonho do qual nosso país “esquecido” ainda está privado.

Por ora, é necessário sabermos que, na série, a vulnerabilidade social dos personagens é um fator determinante que molda não apenas suas experiências de 5 vida, mas também suas reações emocionais e comportamentais. O impacto dessa vulnerabilidade se reflete em suas interações, decisões e na luta constante por pertencimento e aceitação. A série retrata de forma poderosa como essas dinâmicas influenciam a trajetória dos personagens, oferecendo uma visão profunda e sensível das complexidades da experiência humana em contextos desafiadores.

Através da lente de diretores talentosos e de um argumento original e corajoso, a série ilumina os recantos mais sombrios da nossa sociedade, servindo como um apelo contundente à reflexão e à ação perante a violação sistemática dos direitos mais fundamentais da criança.

Não há como tratar da série sem fornecer alguns “spoilers”, mas, independente disso, recomendo fortemente que seja assistida, pois o impacto sobre cada qual é, como tudo em psicanálise, absolutamente singular.

15 de junho de 2022

E quando o jogo da discórdia acontece no ambiente escolar?

Na última edição do programa televisivo Big Brother Brasil uma das novidades foi o chamado “jogo da discórdia”. Pela “telinha” os espectadores do reality puderam presenciar encontros onde um dos participantes tinham suas características mais “negativas” sublinhadas pelos outros, num ritual de exposição bem compatível com a proposta do programa, mas com o requinte de humilhação próprio dos grupos quando se juntam para desqualificar uma ou mais pessoas.

Na verdade, essa não seria a primeira vez na qual um veículo midiático sugere ao público que valores como a vergonha pública, a crueldade e a falta de sensibilidade no trato com o outro é algo cabível. Deste modo, milhares de lares são invadidos pelos exemplos mais nefastos de convivência e banalização da violência. Até aqui, tudo absolutamente dentro do propósito de um programa que se utilizará de todos os artifícios para manter e ampliar sua audiência.

As consequências teriam sido menos graves se parte da audiência do programa, composta por adolescentes, não tivessem, seguindo o exemplo oferecido, levado o mesmo jogo para o interior das escolas.

Entretanto, o fato é que, passados alguns meses do fim do reality, ouvimos relatos nos quais o jogo, com ou sem adaptações, tem sido praticado em ambientes escolares. No Distrito Federal, a diretoria de ensino das escolas públicas, relatou, em março deste ano, episódios de violência física decorrentes da contrariedade vivida por jovens ao se verem expostos pelo conteúdo do jogo.

Do mesmo modo, instituições de ensino da rede privada apelam para o compartilhamento da situação com as famílias ou mesmo necessitam interferir após sentimentos de mágoa, tristeza e profundo desconforto serem relatados pelos seus estudantes ao fim da realização do jogo.

Como se as equipes escolares não tivessem muito trabalho, como se a adolescência já não fosse uma fase sensível ou como se os efeitos do isolamento social provocados pela pandemia da Covid-19 não fossem suficientes, surge esse novo desafio a ser equacionado no ambiente escolar.

É certo que o “jogo da discórdia” pode ser classificado como uma modalidade de intimidação sistemática também conhecida como Bullying. A exposição de um ou mais adolescentes nessa atividade, que pode acontecer até mesmo na própria sala de aula, no intervalo entre as aulas ou momentos antes do recreio,  traz alguns pontos que são passíveis de reflexão.

Numa sociedade polarizada, na qual o discurso de ódio e a hostilidade vêm sendo praticados recorrentemente, que instituições, além da própria escola, são responsáveis por tentar trazer à tona a cultura da paz ou da não violência, o diálogo civilizado como forma de apresentação das opiniões e o incentivo ao respeito?

Não é mais concebível que sobre as escolas recaia toda a responsabilidade em “aparar as arestas” deixadas pela exposição das crianças e adolescentes ao ambiente midiático, às redes sociais ou as hashtags bombásticas que fazem com que grupos inteiros pratiquem as mais variadas formas de agressão.

Se a escola tem a responsabilidade de trabalhar aspectos como a empatia, a tolerância, a convivência educada e os relacionamentos saudáveis, não é possível que ela se mantenha “enxugando gelo”, quando outras instituições da sociedade não se responsabilizam pelo incentivo que promovem à agressividade destrutiva e aos rituais de desqualificação pública dos sujeitos.

Em 2021, a UNESCO nos apresenta a cartilha: “Paz, como se faz? Semeando cultura de paz nas escolas”, assinada pelas autoras Lia Diskin e Laura Roizman. Além disso, estabelece que a cultura da paz está na ordem das prioridades no que tange às orientações relativas às práticas de ensino. Muito fecundo e necessário, esse trabalho. Mas, será que não seria momento de avançarmos? Que espécie de estratégia ou crivo crítico podemos lançar sobre os veículos midiáticos, sobre as redes sociais ou mesmo  sobre os programas de incentivo à cultura?

Se não temos respostas prontas para estas perguntas e sabemos que essa é uma equação bastante difícil, devemos concordar que a promoção de sofrimento para as crianças e adolescentes do nosso país tem que cessar. Os riscos são grandes e desde a família até o conjunto da sociedade temos sofrido os impactos de gerações mais vulneráveis, angustiadas e mergulhadas na desesperança.

Será que não é hora de fazermos eco às vozes que pedem paz e cultivam a não-violência? Espero que sim!

8 de junho de 2022

Quando a escola deve sugerir que um aluno procure um psicólogo fora do ambiente escolar?

Há muitas dúvidas diante dessa questão entre os próprios alunos. Como já falamos aqui, o psicólogo escolar age de forma distinta de um psicólogo clínico. Porém, quando se observa a necessidade de um encaminhamento psicológico mais individualizado, o psicólogo escolar deve sugerir aos responsáveis que busquem o auxílio de um profissional da psicologia clínica.

Mas, afinal, quais devem ser os principais motivos para tal encaminhamento?

Cada escola trabalha com uma metodologia diferente, muitas utilizam fichas de encaminhamento, onde estão sinalizados os comportamentos observados no estudante, que indicariam a necessidade de um atendimento fora da escola. Normalmente, nessa ficha encontram-se as seguintes características:

  • Agressividade;
  • Apatia (desinteresse, lentidão, tristeza, timidez);
  • Choro excessivo e frequente;
  • Ansiedade aumentada;
  • Dificuldade de socialização;
  • Resistência em ir à Escola;
  • Medos excessivos;
  • Fantasia excessiva (mentiras, relatos contraditórios);
  • Problemas de aprendizagem;
  • Suspeita de dislexia;
  • Suspeita de TDAH;
  • Suspeita de deficiência intelectual;
  • Funções mentais prejudicadas (memória, atenção);
  • Dificuldades de compreensão e execução de tarefas;
  • Suspeita de altas habilidades/superdotação.

Entretanto, há instituições de ensino que utilizam outra forma de trabalhar, que seria a de registros feitos durante entrevistas com cada estudante ou fruto de observações em situações de interações com os mesmos. Pessoalmente, eu prefiro essa segunda modalidade de trabalho, pois não se cria categorias nas quais as características dos estudantes precisem se “encaixar”. Afinal, os estudantes sempre trazem novos problemas e questionamentos que não serão necessariamente previstos em um documento E, quando o setor de psicologia mantém sua escuta aberta e atenta, se torna mais sensível para fazer os encaminhamentos necessários. 

O mais importante é sabermos que quando a família confia na escola a indicação para acompanhamento externo deve ser atendida. Afinal de contas, além do âmbito familiar, é na escola que a criança e o adolescente apresentam suas principais características, seus conflitos, seus padrões de convivência e compartilham seus pensamentos e sentimentos.

Uma equipe atenta e sensível, em geral, só realiza os encaminhamentos quando já se assegurou que todas as alternativas no âmbito da educação já foram esgotadas. Sendo assim, converse com os profissionais que lidam diariamente com seus filhos e sigam suas orientações.

desenvolvimento de habilidades socioemocionais
1 de junho de 2022

A importância do desenvolvimento de habilidades socioemocionais nas escolas

Desenvolver as próprias habilidades socioemocionais permite que o indivíduo estabeleça relacionamentos mais tranquilos e respeitosos com seus pares. Também influencia a saúde mental, já que saber lidar com as próprias emoções torna mais fácil o enfrentamento de desafios.

Empatia, bem-estar emocional, autoestima, ética, paciência, autoconhecimento, confiança, responsabilidade, autonomia e criatividade são as principais habilidades socioemocionais. De acordo com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), o trabalho das competências e habilidades socioemocionais deve ser contemplado no currículo escolar do Brasil. 

No contexto de pandemia, as crianças e adolescentes estavam impedidas de conviverem presencialmente no ambiente escolar. Por conta disso, tais habilidades não puderam ser trabalhadas, já que o ensino remoto limitou muito as possibilidades de atuação junto aos estudantes. Com o retorno ao modo presencial temos a oportunidade de promover seu desenvolvimento.

Mas o que contribui para esse desenvolvimento?

  • As atividades educativas podem estimular criatividade, 
  • O trabalho em equipe é importante para gerar empatia e relacionamentos saudáveis
  • A promoção de desafios, incentiva a autonomia e da inventividade
  • Atividades que motivem a participação do estudante geram maior iniciativa
  • Inclusão escolar gera maior empatia
  • Valorização e reconhecimento dos avanços de cada estudante, para o desenvolvimento de autoconhecimento, confiança e responsabilidade
  • Atividades de raciocínio lógico 
  • Propostas com música e arte são essenciais, como já falamos aqui no blog.

Quando pensamos, por exemplo, nas propostas para o novo ensino médio, vemos que esse inclui o trabalho com oficinas. Com atividades voltadas para o cotidiano de maneira reflexiva e inventiva. Estas oficinas proporcionam aos estudantes não somente o acesso ao academicismo tradicional, mas vai adiante quando os envolve no fazer de cada atividade.

Por isso, muitas escolas se anteciparam agregando esse trabalho no Currículo Comum e aquelas que não o tinham feito, estão com a incumbência de adaptar seu modelo de Ensino Médio às novas propostas.

Veja, que uma educação mais conectada com a realidade externa à da escola vem sendo cada vez mais necessária e já é uma exigência na realidade das escolas.

Gostou? Podemos utilizar projetos escolares para facilitar o desenvolvimento dessas habilidades socioemocionais, você sabia? Se achou interessante, fiquem atentos ao lançamento do meu curso sobre projetos nas escolas!

25 de maio de 2022

Educação domiciliar: quais são as implicações, caso seja aprovada pelo Senado?

Na Câmara dos Deputados, o projeto já foi aprovado. Aguardamos sua tramitação pelo Senado Federal.

O espaço escolar é muito mais que apenas um local acadêmico, é também onde nossos jovens irão desenvolver habilidades socioemocionais e de socialização com outros colegas, ou seja, um dos principais ambientes para o início da vida em sociedade. 

Educação domiciliar já foi discutida e vetada

Em 2018, o STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu que não seria permitido o ‘homeschooling’ com a justificativa de que é necessária a frequência das crianças na escola, pois os estudantes deveriam ter acesso à convivência com diferentes valores, crenças e origens para seu melhor desenvolvimento social. 

Entretanto, há opiniões divergentes sobre o assunto como, por exemplo, a dificuldade de inclusão em relação a crianças atípicas nas escolas. Porém, deveria ser de responsabilidade do Estado garantir inclusão no espaço escolar, ao invés de desistirmos da instituição escolar por algo que nela precisa ser remodelado. Os Alunos neuro divergentes também têm o direito e necessidade de viverem no ambiente escolar. Além disso, os outros estudantes são beneficiados também, tendo a oportunidade de conviver com diferenças desde cedo, trabalhando a empatia e responsabilidade com o próximo.

Há também responsáveis que acreditem que com a educação familiar pode oferecer o ensino de acordo com suas crenças e valores pessoais. Por exemplo, uma educação religiosa voltada aos princípios que aquela família acredita. O que é preocupante nesse caso é a doutrinação, levando em conta que essas crianças terão acesso apenas a o que as é apresentado e com isso não conseguirão obter conhecimento sobre a diversidade, o que pode gerar mais preconceitos no Brasil, um dos países com maiores taxas de denúncias por intolerância religiosa, entre outras.

A discussão do ensino domiciliar no contexto pós-pandemia

Caso acompanhe meu perfil regularmente, você deve se lembrar sobre as vezes que eu falei em relação ao cenário pós-pandêmico e como impacta a volta às aulas presenciais. Foi mostrada uma mudança de comportamento radical dos estudantes e aumento significativo na violência escolar. 

           Imagine agora como seria se o ‘homeschooling’ fosse regulamentado? Como cresceriam essas crianças sem nunca ter o mínimo de acesso à convivência com grupos de pares? O abuso infantil, infelizmente, é uma realidade no Brasil e a educação domiciliar involuntariamente promove a facilidade para que tais atos continuem acontecendo com maior frequência.

          O mais curioso no projeto é que ele apenas contempla as famílias cujo, pelo menos um dos pais possui curso superior completo ou de tecnólogo. Ou seja, ele é de caráter elitista e desobriga somente os filhos mais privilegiados da nossa sociedade à convivência escolar. Por outro lado, ele gera novas demandas e obrigações para os conselhos tutelares, já tão onerados em suas funções e para as próprias escolas que adotarem as matrículas sobre a forma de homeschooling.

Afinal, o ensino domiciliar é benéfico para quem?

A pergunta que precisa ser feita é, nessas condições, a quem o ensino domiciliar realmente contempla? Aos interesses gerais de uma sociedade que necessita de uma população educada e em condições de convívio respeitoso em sociedade ou àqueles que pretendem blindar seus filhos e filhas de influências externas aos seus lares?

Na verdade, tal projeto vem de encontro tão somente à alegação de que a escola apresenta possíveis influências deletérias ao crescimento dos estudantes. Vejamos, os educadores recebem formação específica e, através dos relatos dos egressos da escola básica são de importância fundamental para sua formação acadêmica, pessoal e coletiva. Portanto, a dúvida acerca do impacto da escola sobre crianças e adolescentes me parece infundada.

Deste modo, repito aqui o slogan que afirma “lugar de criança é na escola”. Sim! Lugar de criança é na escola que deve garantir condições de respeito, dignidade, escuta, acolhida e ser suficientemente desafiante para provocar seu crescimento, sua construção de conhecimentos e sua formação para uma vida cidadã. 

Sobre

Psicóloga, psicanalista, orientadora profissional e palestrante.

  • (21) 99113-3522
  • psi@claudiagindre.com.br

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